3# BRASIL 12.2.14

     3#1 SOCIEDADE EM ESTADO BRUTO
     3#2 ENQUANTO ISSO, ...
     3#3 A S.A. DOS ESCRAVOS DE BRANCO
     3#4 A TTICA DO DEBOCHE
     3#5 RODRIGO CONSTANTINO  AS CAUSAS DA INFLAO

3#1 SOCIEDADE EM ESTADO BRUTO
Em duas semanas, o Brasil assiste a dois "justiamentos". A onda de barbrie mostra que a populao est  beira da saturao: na segurana, na economia, nos transportes, o pas d um passo  frente e dois para trs.
LESLIE LEITO E FERNANDA ALLEGRETTI

     Mesmo nas sociedades mais avanadas a civilizao e a barbrie travaram quedas de brao. Os gregos clssicos do sculo IV antes de Cristo, que inventaram o pensamento abstrato, colocando a humanidade em um patamar superior, conviviam sem remorsos com a escravido e o genocdio  as cidades inimigas sitiadas podiam escolher entre a rendio, caso em que apenas os homens adultos seriam  mortos, e a resistncia, que significava o massacre pela espada de todos: homens, mulheres e crianas. Na Roma dos Csares, que atingiu um nvel de qualidade de vida que s seria equiparado com o advento da Revoluo Industrial na Inglaterra dezesseis sculos mais tarde, a diverso mais popular era ver pessoas serem devoradas por lees famintos no Coliseu. As sociedades modernas tambm foram palco do mesmo fenmeno de contrastes. No comeo dos anos 60, a Unio Sovitica, no auge, foi capaz de colocar um homem em rbita, mas mandava dissidentes para morrer de fome e exausto do trabalho escravo em infernos na Terra, os "gulags". Mesmo nos Estados Unidos do ps-guerra, em que pessoas comuns tinham mais luxos do que os monarcas do comeo do sculo XX, o dio racial separava brancos e negros, que comumente eram alvo de organizaes secretas-assassinas, sendo a Ku Klux Klan a mais notria. Mas tudo isso  histria. A tendncia do progresso atualmente  aplainar as diferenas mais gritantes entre os estgios civilizatrios em um mesmo territrio. No Brasil no vinha sendo diferente. Mas, de uns tempos para c, os episdios de barbrie tm sido to frequentes e crescentemente cruis que h sinais alarmantes de que o pas pode estar vivendo um processo de ruptura social grave, cujo sintoma clssico  o amortecimento das conscincias, um transe coletivo em que as pessoas j no se chocam com mais nada. 
     Tome-se o caso do adolescente que foi encontrado nu e com o pescoo preso por uma trava de bicicleta a um poste de uma rua no Aterro do Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Na semana anterior, um motoqueiro se aproximou de um jovem, imobilizado por dois homens no meio da rua, e estourou-lhe os miolos com trs tiros  queima-roupa. Cena semelhante  registrada na semana passada num "linchamento oficial" na Repblica Centro-Africana, um dos pases mais pobres do mundo. Algum filmou a cena com um celular. O crime ocorreu  luz do dia em uma esquina movimentada de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Pelo vdeo d para perceber que a execuo sumria foi insuficiente para mudar a rotina da rua. A vida ali continuou como se nada de grave tivesse ocorrido. Tampouco houve muita comoo com a divulgao das imagens do adolescente preso a um poste como um escravo no pelourinho  cena corriqueira e tpica no Brasil de meados do sculo XIX, mas que, exibida por gravuristas europeus a seus conterrneos na Europa, j produzia engulhos na poca. 
     Nos dois episdios brbaros da semana passada, os autores eram "justiceiros" imbudos da tarefa de "punir" ladres. No caso do Aterro do Flamengo, proclamavam-se "patrulheiros", cujo "novo esporte"  como escreveu um deles, Lucas Felcio, em uma rede social   "caar vagabundos roubando para meter porrada". 
     "Bandido bom  bandido morto!!", dizia uma das muitas mensagens postadas na internet sobre P.R.S., o adolescente preso ao poste, de 15 anos e trs passagens pela polcia por furto, roubo e leso corporal. "Vagabundo tem de ficar assim mesmo! Quem tem pena leva para casa para cuidar", dizia outra. "Se a polcia no age, o povo toma atitude", escreveu algum. O mesmo tom congratulatrio foi usado para comentar a ao do atirador de Belford Roxo, que a polcia identificou como integrante de uma milcia da regio. "Show de bola! Ladro e estuprador tem que morrer mesmo!" O vdeo do justiamento em Belford Roxo foi o que atingiu 1 milho de visualizaes mais rapidamente na histria do site do jornal Extra. No Facebook, o nmero de comentrios a favor dos "justiceiros" foi o dobro do de crticas. 
 francamente assustador que grupos de pessoas se coloquem no papel do Estado e da lei prendendo um adolescente ao poste ou executando um homem como quem abate uma mosca. Mas  alarmante que isso ocorra sem muita contestao e at sob aplausos na cidade-vitrine do Brasil potncia, sede da final da Copa do Mundo de Futebol da Fifa neste ano e da Olimpada em 2016. O recurso da "justia pelas prprias mos"  sintoma de desagregao do tecido social, da ausncia do Estado e da volta  lei do mais forte.  a negao das conquistas mais bsicas da civilizao. Resume o antroplogo Roberto DaMatta: "A descrena nas instituies est na base dessas aes". Motivos para alimentar essa descrena no tm faltado. Na semana passada, o prprio secretrio de Segurana, Jos Mariano Beltrame, admitiu a perda de controle do estado sobre regies estratgicas como a Rocinha e o Complexo do Alemo, justamente as reas que h poucos anos foram liberadas do jugo dos bandidos sem guerra  operaes que projetaram para o mundo a imagem de um Brasil novo e pacfico. 
 frustrao com a derrota da poltica de ocupao pacfica dos morros, os cariocas somaram a notcia da escalada dos roubos na Zona Sul, onde eles aumentaram 40% em 2013. "Tivemos as manifestaes de junho, depois os black blocs e agora essas cenas de barbrie. Enxergo nisso uma escalada em que as pessoas, sem confiana nas autoridades, tornam-se cada vez mais violentas", diz o cientista poltico Rubens Figueiredo. 
     H no Brasil, nestes primeiros meses de 2014, uma sensao generalizada de impotncia diante das agresses  seja pelo calor implacvel do vero mais rigoroso e seco das ltimas dcadas no Sudeste do pas, seja pelo descaso indisfarvel das autoridades pelas torturas cotidianas impostas aos moradores das grandes cidades em situaes corriqueiras como embarcar em um vago do metro ou do trem urbano. Fazia 34 graus em So Paulo quando, no fim da tarde de tera-feira, a porta de um vago da linha 3 do metr emperrou, impedindo que toda a composio sasse da estao. Se o que se passou em seguida teve a participao de vndalos ou provocadores profissionais, como disse o governador Geraldo Alckmin, isso ainda ter de ser provado. O que ficou demonstrado at agora  que os sete minutos de colapso da linha provocaram uma crise generalizada de pnico entre os passageiros, espremidos na proporo de onze por metro quadrado e submetidos a uma sensao trmica que naquele momento passava de 40 graus. A vida em sociedade requer o atendimento a certas regras de convivncia. A principal delas  o exerccio da tolerncia.  isso que est acabando. So cada vez mais evidentes os sinais de que a pacincia dos brasileiros das grandes metrpoles est chegando ao limite  e, em situaes assim, as convenes sociais, a tolerncia, a civilizao, enfim, evaporam facilmente. 

AS DEZ ILUSES BRASILEIRAS

1- MIRAGEM DO PETRLEO
Avano: Em 2006, o ex-presidente Lula anunciou que o pas havia atingido a autossuficincia em petrleo
Retrocesso: Desde ento, a produo caiu 17%. No ano passado, a Petrobras gastou 16,5 bilhes de reais para importar combustveis, o maior valor dos ltimos quatro anos

2- POTNCIA AGRCOLA
Avano: A safra brasileira bateu recorde no ano passado, com 188,2 milhes de toneladas
Retrocesso: Na hora de vender essa riqueza, o Brasil fracassa. A exportao de um continer demora treze dias e custa 2215 dlares, enquanto em Singapura leva metade do tempo, por um quarto do valor

3- CONEXO GERAL
Avano: O acesso  banda larga aumentou seis vezes em quatro anos, e hoje beneficia 60% da populao
Retrocesso: O pas est apenas em 84 lugar no ranking da velocidade, com uma conexo de 2,7 Mbps - nos Estados Unidos, o oitavo colocado, a mdia  de 9,8 Mbps

4- A COPA  NOSSA
Avano: O Brasil comemorou em 2007 a escolha para a sede da Copa. A previso era gastar 2,6 bilhes de reais em estdios e 7,9 bilhes em obras de transportes, como metr e trens
Retrocesso: Os estdios j consumiram 8 bilhes de reais, mas apenas 2,7 bilhes foram para as obras de infraestrutura. O orgulho por sediar o evento deu lugar ao temor de que ele resulte em vexame

5- EDUCAO UNIVERSAL
Avano: O nmero de adolescentes de 15 a 17 anos no ensino mdio subiu 35% em uma dcada e hoje chega a 54%
Retrocesso: A qualidade do ensino continua ruim - a mdia brasileira no Pisa (prova internacional que avalia os estudantes do ensino mdio) subiu apenas 9,2% entre 2000 e 2012, e o pas ocupa a 57 posio entre 65 naes

6- FESTA NO AR
Avano: O total de passageiros cresceu 62% na ltima dcada - as viagens interestaduais de avio chegaram a superar, pela primeira vez, as de nibus
Retrocesso: Os aeroportos operam no limite - Guarulhos (SP), por exemplo, j funciona 20% acima da sua capacidade. Entre os 100 melhores aeroportos do mundo, nenhum  brasileiro

7- LUZ PARA TODOS
Avano: O consumo de energia bateu um novo recorde na semana passada, chegando a 86 000 megawatts.  resultado do aumento da venda de eletrodomsticos e eletrnicos, como os computadores, que triplicaram em dez anos e hoje esto em quase metade dos lares brasileiros
Retrocesso: Como a gerao de energia no acompanhou o consumo, o sistema eltrico passou a operar na capacidade mxima. Nos ltimos trs anos, houve uma mdia de cinco apages por ms no pas

8- O SONHO DO CARRO PRPRIO
Avano: O tamanho da frota cresceu 82% em dez anos, e a relao entre o nmero de automveis e o de habitantes praticamente dobrou
Retrocesso: O tempo mdio de deslocamento nas regies metropolitanas aumentou 12% de 2003 a 2012 e chegou a 40,8 minutos. Em So Paulo, a velocidade mdia no horrio de pico  de 18,5 quilmetros por hora, menor que a de uma bicicleta

9- UM BILIONRIO BRASILEIRO
Avano: O brasileiro Eike Batista chegou a ser o stimo homem mais rico do mundo, com a fortuna de 34,5 bilhes de dlares. Tinha todo o incentivo do governo em seu plano de alcanar o primeiro lugar da lista
Retrocesso: No fim do ano passado, Eike quebrou, depois que ficou claro que as promessas de explorao de petrleo de sua principal companhia, a OGX, eram vazias. Se ele vender tudo o que tem, suas dvidas como pessoa fsica ainda passaro de 1 bilho de dlares

10- PAZ NO MORRO
Avano: A instalao de quarenta Unidades de Polcia Pacificadora (UPPs) em quatro anos foi o mais audacioso plano de segurana do governo Srgio Cabral. Lanado em 2008, ele previa a retomada do territrio dominado por traficantes de drogas nos morros cariocas
Retrocesso: Cinco anos depois, o comando do trfico, inicialmente empurrado para outras favelas, voltou a mostrar poder de fogo nos morros supostamente pacificados: nove ataques diretos a UPPs foram registrados s entre dezembro e janeiro, sem contar tiroteios frequentes em ruelas e becos

O BRASIL NO AVANA. H PERIGO DE REGREDIR? 
O otimismo com a incluso social e o aumento da renda das classes mais baixas contrasta com a corrupo, os problemas de planejamento, a falta de segurana e a infraestrutura precria. Afinal, o Brasil est no caminho certo ou precisa mudar de direo?

Roger Moreira  Msico
J regredimos. Estamos cada vez mais nos comportando como homens das cavernas. A lei do mais forte prevalece, a ignorncia cresce, a violncia aumenta, a economia  sustentada pelo governo."

Roberto Minczuk  Maestro
"Nos ltimos vinte anos, vivi, bem otimista, muitas melhorias no Brasil. Agora, infelizmente, vejo o pas regredir. O problema  que o brasileiro tolera a mentira, aceita e pratica o famoso 'jeitinho'."

Adriano Pires  Economista
"Sim. O governo falhou no planejamento energtico. Temos potencial de ampliar o uso de fontes como vento, gs natural, biomassa e sol, mas continuamos extremamente dependentes da gua."

Marcos Lisboa  Economista
"O Brasil melhorou - e muito. Desde o governo Itamar temos vivenciado um processo de diminuio das desigualdades. Entretanto, essa evoluo comeou a piorar bastante a partir de 2008."

Aguinaldo Silva  Dramaturgo
"Basta comparar o que ouvimos hoje na MPB com o que ouvamos h vinte anos. E se passarmos ao cinema, ao teatro e  TV... No h risco de retrocesso, j retrocedemos. E parece que estamos adorando isso."

Paulo Lins  Escritor
"Acho impossvel a violncia regredir e voltar a ser como no sculo passado, mas, hoje, ningum est tranquilo e a violncia se d em toda a sociedade. Manter a segurana  mais do que combater a criminalidade."

Roberto DaMatta  Antroplogo
"Sim. O problema  que no Brasil os costumes ainda so os de uma sociedade aristocrtica e escravocrata, com pendor para a violncia. A isso, soma-se a descrena geral em todas as instituies."

Contardo Calligaris  Psicanalista
" um retrocesso a situao atual porque ela no  diferente da dos anos 80, quando conheci o Brasil.  inquietante observar que o pas avanou em diversos setores, mas a violncia continua muito presente no dia a dia."

Luiz Felipe Ponde  Filsofo
"Parece que vivemos um retrocesso. O pas sonhou com Rousseau e acreditou que a natureza humana era boa, mas agora d de cara com Hobbes, porque quando o contrato social se dissolve a violncia vem  tona."

REDE ELTRICA PISCA-PISCA
     Intempries de gravidade inesperada e desastres ocorrem em todos os pases. A reao a eles distingue os desenvolvidos dos protocivilizados. H duas semanas, uma tempestade de gelo na cidade de Atlanta, no sul dos Estados Unidos, deixou milhares de pessoas presas, por horas, no trnsito, no trabalho e tambm nas escolas. As equipes de resgate e os servios pblicos no foram capazes de evitar o caos. Criticado pela reao falha, o governador do Estado da Gergia, Nathan Deal, foi a pblico assumir a sua responsabilidade pelo transtorno. "Seremos muito mais agressivos para tomar as medidas necessrias com antecedncia nas prximas tempestades", disse Deal. 
     No Brasil, dias depois do apago que deixou todo o Nordeste sem luz, cinco meses atrs, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chipp, defendeu a necessidade de o governo ampliar o uso de um mecanismo de segurana destinado a  dobrar a proteo contra falhas nas linhas de transmisso. Chamado de "N-2", o critrio permite que o sistema continue a funcionar mesmo em caso de dois defeitos simultneos. Hoje, apenas uma pequena frao da rede de transmisso, como a que faz a ligao  usina de Itaipu, opera com essa proteo adicional. O preo a pagar seria uma conta de luz mais cara, para financiar os investimentos necessrios. O governo engavetou a proposta. Na tera-feira passada, dia 4, um apago no meio da tarde deixou sem luz 6 milhes de pessoas de treze estados, alm do Distrito Federal, depois de um curto-circuito em duas das trs linhas que levam energia da usina de Tucuru, no Par, s regies Sudeste e Sul. 
     Foi o 181 apago com queda de no mnimo 100 megawatts desde o incio de 2011, quando a presidente Dilma Rousseff tomou posse, segundo levantamento do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). A causa do curto ainda no foi identificada, e uma das   hipteses a ser avaliadas ser a queima em razo de um raio. Em dezembro de 2012, quando os tcnicos disseram que outro blecaute poderia ter sido causado por raios, a presidente afirmou que a explicao deveria ser vista como motivo de gargalhada, porque o Brasil est entre os pases onde mais caem raios e relmpagos, e o sistema conta com dispositivos de proteo. Na semana passada, Dilma, ex-ministra de Minas e Energia, reafirmou sua descrena na possibilidade de raios derrubarem a rede eltrica. 
     O verdadeiro raio nessa histria, at agora,  a incapacidade do governo de reconhecer a falibilidade no sistema eltrico. O blecaute da semana passada ocorreu prximo ao horrio em que tm sido registrados sucessivos recordes de consumo no pas, em decorrncia do uso intenso de aparelhos de ar condicionado e refrigerao. Por causa do calor e da escassez de chuvas nas cabeceiras dos rios que abastecem os reservatrios das principais usinas hidreltricas do Brasil, quantidades crescentes de energia tm sido transferidas do Norte, onde h excedente de produo, para as demais regies, onde h dficit. Diz Joo Carlos Mello, presidente da consultoria Thymos Energia: "O sistema opera no limite e, portanto, est mais vulnervel. A transferncia de energia se d por meio de linhas com centenas de quilmetros. Qualquer imprevisto derruba a rede". 
     No incio de 2013, a deciso do governo de forar a renegociao de contratos, a fim de derrubar o preo nas contas de luz, deixou as empresas com o caixa apertado para investimentos. Aliado  demora na concesso do licenciamento ambiental, o resultado  o atraso nos projetos. Apenas 30% das obras em linhas de transmisso esto dentro do prazo. O atraso mdio supera um ano. A luz mais barata incentivou o consumo, na contramo da tendncia de buscar a eficincia energtica. No fim do ano passado, o governo decidiu adiar de 2014 para 2015 a adoo de um sistema tarifrio que serviria justamente para equilibrar a relao entre oferta e demanda por meio do preo: nos meses em que a gerao de energia estivesse mais cara, a conta subiria, e vice-versa. 
     Os reservatrios esto nos nveis mais baixos desde o racionamento de energia de 2001. Para preserv-los, o governo recorre s usinas termeltricas movidas a combustveis fsseis, mais caras. Neste ano a conta deve chegar a 10 bilhes de reais para as distribuidoras de energia. Afirma Roberto D'Araujo, diretor do Instituto Ilumina: "O governo diz que o setor eltrico est equilibrado. Que equilbrio  esse, com uma conta bilionria, capaz de quebrar as empresas, mas que acaba sendo paga pelo Tesouro?". 
MARCELO SAKATE

COM REPORTAGEM DE ALEXANDRE ARAGO, BELA MEGALE, CECLIA RITTO, KALLEO COURA, LUCAS SOUZA E PIETER ZALIS


3#2 ENQUANTO ISSO, ...
...os brasileiros que podem se refugiam na Flrida, onde os imveis so mais baratos, quase no h assaltos, as praias so limpas e as regras de trnsito so respeitadas.
TATIANA GIANINI, DE MIAMI

     Miami  o refugio no exterior preferido de brasileiros cansados de esperar que o Brasil d certo. Nas ltimas dcadas, a cidade americana j havia se consolidado como destino dos exilados da ditadura cubana, da classe mdia venezuelana, esmagada pelo chavismo, e de argentinos em busca de um canto para esconder seus dlares. Atualmente, porm, nenhuma nacionalidade se mostra mais interessada em se refugiar, temporria ou permanentemente, em Miami. Os brasileiros so os estrangeiros que mais pesquisam as propriedades  venda no site da associao de imobilirias da cidade e s perdem para os canadenses como os maiores compradores de imveis em todo o Estado da Flrida. H cinco anos, eles nem sequer figuravam na lista dos principais clientes. Ao contrrio dos canadenses, que preferem as residncias mais baratas, os brasileiros dominam o segmento a partir de 500.000 dlares. Segundo uma estimativa da imobiliria Piquet Realty, 13% de todas as vendas na regio de Miami em 2013 foram para brasileiros. Outras estatsticas falam em 20%. O nmero pode ser ainda maior, pois boa parte das casas e dos apartamentos  comprada em nome de empresas (que nos Estados Unidos pagam menos impostos sobre propriedade), o que torna impossvel determinar a nacionalidade dos clientes. 
     O que faz um cidado de um pas com 7400 quilmetros de litoral, como  o Brasil, comprar uma residncia de veraneio a oito horas de avio e que, se no puder se mudar para l em definitivo, s conseguir desfrutar poucas vezes ao ano? A motivao, quase sempre,  simular a vida num Brasil onde as coisas funcionam. Em Miami, podem-se fazer compras em portugus e h brasileiros em toda parte, mas ningum corre o risco de ser assaltado a mo armada no sinal. A cidade  um exemplo de civilidade. Quando um carro tem o pneu furado, a prefeitura pode ser responsabilizada pelo buraco na rua que o causou. Nas areias de Miami Beach no h lixo nem vendedores ambulantes, s bandos de gaivotas, postos de salva-vidas e banhistas. Pode-se deixar tranquilamente os pertences embaixo do guarda-sol enquanto se mergulha ou sacar a cmera fotogrfica para registrar a paisagem. Nas mesas de bar ao ar livre da Lincoln  Road, um calado movimentado, os clientes conversam sem precisar esconder relgios, jias e celulares. "Aqui vemos o dinheiro dos impostos ser revertido em favor dos contribuintes. Tudo funciona", diz o fazendeiro e incorporador Romualdo Ferreira, de Goinia, que desistiu de construir uma casa de praia na Bahia para comprar um apartamento na Baa Biscayne, em Miami. 
     
     
     Um investimento como o que Ferreira fez compensa no apenas para os mais endinheirados, mas tambm para a classe mdia, acostumada aos altos preos das cidades litorneas brasileiras. Um apartamento de 130 metros quadrados, trs quartos e uma vaga de garagem num dos trechos mais concorridos de Miami Beach custa o equivalente a 1 milho de reais. Um similar na Riviera de So Loureno, em Bertioga, no Estado de So Paulo, vale 1,6 milho de reais. Os juros de financiamentos por l so mais baixos. Enquanto no Brasil giram em torno de 10% ao ano, nos Estados Unidos a taxa varia de 4,5% a 5%. Para quem j sofreu o longo processo de comprar uma casa no Brasil, Miami  um paraso. Os trmites nos Estados Unidos so bem mais simples. O cliente, para comprovar renda, s precisa apresentar uma carta do contador que faz suas declaraes de imposto e outra do gerente de um banco qualquer no Brasil, alm de referncias comerciais para mostrar que  um bom pagador. Hoje, 17% dos brasileiros que adquirem imveis fazem financiamento, 82% deles por meio de bancos americanos, segundo o Condo Vultures, consultoria do setor imobilirio. O assdio de corretores desesperados no acontece. Nos Estados Unidos, os endereos  venda esto cadastrados em uma mesma base de dados,  qual todas as imobilirias tm acesso. Fecha o negcio aquela que oferecer o melhor atendimento ao comprador 
     Para reduzir o custo de manuteno do imvel nas temporadas em que estiver vazio, basta alug-lo por trs meses ao ano, segundo as contas de alguns brasileiros. Alm disso, os imveis esto se valorizando. Enquanto no Brasil os preos se encontram elevados, com probabilidade de desvalorizao ou estagnao, em Miami os valores ainda no se recuperaram inteiramente da crise de 2008. Como consequncia, os preos ainda esto baixos e compensam mesmo com a recente alta do dlar em relao ao real. 
     Para atrarem o pblico de fora, as construtoras apostam em prdios com servios e instalaes inspirados em hotis de luxo e resorts. No edifcio Jade Residences, h uma piscina com borda infinita, servio de bar na piscina, spa, uma academia completa e estacionamento com manobrista, inclusive para visitantes. O preo do condomnio fica em torno de 1300 reais. Em Belo Horizonte, por exemplo, uma estrutura semelhante custaria 4000 reais mensais. "Os prdios americanos tm em geral mais andares e vrias unidades, o que dilui os custos", comenta Renato Teixeira, presidente da Re/Max Brasil, rede imobiliria com atuao nos Estados Unidos. Muitos dos projetos so desenhados especialmente para atender ao gosto dos brasileiros.  o caso do Echo Aventura, que conta com churrasqueira na varanda. "Os brasileiros compraram 90% dos apartamentos", diz Craig Studnicky, presidente da International Sales Group, corretora de imveis que teve um faturamento de 600 milhes de dlares no ano passado. "Um tero desse valor veio dos brasileiros", afirma Studnicky. 
     No so raros os brasileiros frequentadores de Miami que j desconfiaram de algum vizinho compatriota de fonte de renda duvidosa que adquiriu uma casa ou um apartamento especialmente caro. Mas os supostos corruptos h muito deixaram de ser os principais compradores de imveis na cidade, garantem os corretores veteranos. Diz um deles: "Os brasileiros que chegam com uma mala de dinheiro para pagar  vista por uma casa so cada vez menos comuns. Isso acontece mais com argentinos e venezuelanos". Miami  um refgio, sim. Na sua maioria, de gente honesta. 

Os imveis comprados por brasileiros, por faixa de preo (em 2012, em dlares)
At 299.999: 50%
300.000 a 499.999: 21%
500.000 a 999.999: 18%
1 milho ou mais: 11%
Nesta duas ltimas faixas, os clientes brasileiros superam todos os outros estrangeiros
Fonte: National Association of Realtors

"BRASIL EVOLUDO"
Romualdo Ferreira, dono de fazendas e de uma incorporadora em Goinia, e a mulher, Mnica, cogitaram comprar um imvel na Bahia. Mudaram de ideia quando viajaram para Miami, em 2011. O casal pagou o equivalente a 1,3 milho de reais por um imvel de dois quartos s margens da Baa Biscayne, para onde vo trs vezes por ano. "Aqui  o Brasil evoludo. O clima  semelhante, mas os preos so menores, os servios pblicos funcionam e nos sentimos mais seguros", diz Ferreira. 

DE BICICLETA PARA A ESCOLA 
Em 2011, Estevam Hirschbruch, executivo de uma multinacional, foi transferido de So Paulo para Seattle, levando consigo a mulher. Ana Cristina Anauate Hirschbruch, e os filhos. Em 2012, eles se mudaram para Miami. O valor de mercado da casa de 380 metros quadrados que compraram  30% menor que o de um imvel equivalente em So Paulo. "No teramos uma casa desse porte no Brasil", diz Ana. Os filhos, que em So Paulo frequentavam um colgio particular, agora vo de bicicleta a uma escola pblica de tima qualidade. 

MIMADORA PROFISSIONAL
O trabalho da administradora de empresas paraense Daniele Vasconcelos tem um qu de zeladoria, mas inclui satisfazer os caprichos dos clientes endinheirados. Sua empresa de concierge cuida da limpeza e manuteno de vinte propriedades de brasileiros por, no mnimo, 230 dlares mensais. "Um deles me ligou em um domingo pedindo para providenciar um barco abastecido com champanhe Mot & Chandon Rose e coquetel de camaro. Tudo deveria estar pronto em duas horas", diz Daniele.

LONGE DOS ARRASTES
Apesar de morar a duas quadras da Praia de Ipanema, a relaes-pblicas Patrcia Brando no pe os ps nas areias do Rio de Janeiro, onde foi vtima, mais de uma vez, de altos e arrastes. Desde 2011, ela passa temporadas em Miami com o marido e os filhos em seu apartamento de 180 metros quadrados. Dirige sua BMW de 90.000 dlares (que no Brasil custaria mais que o dobro) em paz o no precisa tirar o relgio nem as jias quando vai a praia. "Aqui, levo a vida que gostaria de poder ter no Rio", diz ela. 


3#3 A S.A. DOS ESCRAVOS DE BRANCO
O relato da cubana que abandonou o programa Mais Mdicos no deixa dvida: 7000 trabalhadores so mantidos pelo governo brasileiro em condies anlogas s da escravido. 
ROBSON BONIN E HUGO MARQUES, DE PACAJ (PA)

     O trabalho escravo  uma realidade brasileira  e um constrangimento aos olhos do mundo. Desde 2003, quando o PT chegou ao poder, cerca de 40.000 pessoas foram libertadas de situaes anlogas s da escravido. Alm disso, 579 empregadores entraram na chamada lista suja de escravagistas do sculo XXI, sujeitos a multas e outras sanes. Esses nmeros so parte do arsenal usado pelo governo para comprovar o compromisso dos petistas com a massa proletria, a base social e as ideias humanistas que inspiraram a formao do partido. Um discurso que  como no caso de tantas outras bandeiras histricas  no resiste  teimosia dos fatos. Na semana passada, ficou claro que o PT, que j transigira com a falta de tica, tambm aceita a explorao do trabalhador. Basta que seja conveniente aos propsitos polticos do partido. Essa nova faceta comeou a ser desvendada depois de a mdica cubana Ramona Matos Rodriguez abandonar o programa Mais Mdicos, uma das principais bandeiras eleitorais da presidente Dilma Rousseff e do ex-ministro da Sade Alexandre Padilha, candidato do PT ao governo de So Paulo. 
     Parte do grupo de 7378 mdicos cubanos que esto no Brasil, Ramona experimentou no pas uma situao parecida com a dos pees aprisionados em fazendas e carvoarias do interior. Segundo seu relato, ao comear a trabalhar, descobriu que receberia apenas 10% do salrio pago aos mdicos de outras nacionalidades que participam do programa. Alm disso, passou a ter a vida monitorada permanentemente, para que no abandonasse o Mais Mdicos nem adotasse uma postura poltica que pudesse afetar os interesses dos governos brasileiro e cubano. O cerco dos capatazes no foi capaz de impedir a fuga de Ramona, que, protegida pelo lder do DEM na Cmara, Ronaldo Caiado (GO), jogou luz sobre como foi de fato a negociao para a contratao dos mdicos cubanos. Ramona revelou, por exemplo, que o governo brasileiro j recrutara mdicos da ilha em 2012, ao contrrio do que disseram Dilma e Padilha no ano passado. Ramona tambm deixou claro que o governo brasileiro recorreu a um atravessador para fechar a operao, justamente como fazem os escravagistas de agora. Houve at uma conveniente triangulao planejada para limpar a barra do Brasil numa ao que era claramente degradante. 
     Primeiro, o governo brasileiro firmou uma parceria com a Organizao Panamericana de Sade (Opas) destinada a garantir a importao da mo de obra. O texto definia que o Brasil pagaria apenas  Opas e no teria vnculo direto com Cuba. A organizao, ento, fechou negcio com a ditadura cubana. Um senhor negcio. O salrio de um participante do Mais Mdicos  de 10.000 reais, ou cerca de 4200 dlares. De acordo com o contrato apresentado por Ramona, a ditadura dos irmos Castro s repassaria 1000 dlares aos mdicos. Do total, apenas 400 dlares (952 reais) so depositados numa  conta bancria no Brasil. Os outros 600 dlares seriam depositados numa conta bancria em Cuba. Como o Mais Mdicos conta com 7378 mdicos cubanos, a ilha lucra cerca de 56 milhes de reais por ms  ou 674 milhes de reais por ano, creditados na conta de uma tal Comercializadora de Servios Mdicos, uma S.A. controlada pelo governo. Como os fazendeiros do Par, o estado com o maior nmero de empregadores inscritos na lista suja do trabalho escravo, os irmos Castro retm a maior parte do salrio prometido. Foi  justamente do Par, e do municpio de Pacaj, que Ramona fugiu para denunciar a explorao dos cubanos no programa Mais Mdicos. 
     A chuva caa na manh do sbado retrasado quando a mdica, depois de caminhar 1 quilmetro numa rua cheia de barro, embarcou numa caminhonete Hilux cabine dupla com destino a Marab, a 280 quilmetros de distncia. Ao volante da caminhonete estava o empresrio Rivelino Vieira, dono de uma loja de materiais de construo que fica ao lado da casa alugada pela prefeitura de Pacaj para acomodar a equipe de mdicos cubanos. A fuga foi planejada durante meses. Ramona temia ser descoberta e denunciada pelas colegas Magdalys Campo Pupo e Marlene Ramirez Gomez. "A Ramona era monitorada dia e noite pelos cubanos", conta Vieira. Foi a mulher do empresrio, Elaine, que comprou a passagem de avio para Ramona de Marab a Braslia. To logo perceberam a fuga, as duas colegas cubanas de Ramona foram  loja do casal pedir satisfaes e tentar descobrir o paradeiro da mdica. "A Magdalys chegou aqui e disse que a Polcia Federal e o consulado cubano iriam nos procurar e descobrir tudo. Ficamos com medo. A partir da, pedimos a Ramona que no nos telefonasse mais", conta o empresrio. Diante do fracasso dos capatazes, foi a vez de os capites do mato entrarem em campo. 
     Procurado, o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, disse que a Polcia Federal no investigou a mdica cubana. J petistas grados passaram a desqualific-la, dizendo que Ramona, desde o incio, queria se mudar para os Estados Unidos. A participao no Mais Mdicos seria uma etapa desse plano. Na semana passada, a mdica pediu concesso de refgio no Brasil e visto na Embaixada dos Estados Unidos. Novo ministro da Sade, Arthur Chioro disse que a oposio estava usando a mdica para atingir politicamente o governo e tratou o episdio como um caso isolado. Nenhuma palavra foi proferida sobre as condies impostas aos mdicos cubanos  entre elas a proibio de se casar com brasileiros e a obrigatoriedade de s viajar de frias para Cuba. Nos bastidores, o governo adota uma postura ainda mais cnica. Lava as mos e diz que s firmou parceria com a Opas. Se a organizao e o governo cubano negociaram para pagar uma mixaria aos mdicos e impor uma srie de restries a eles, isso no diz respeito ao Brasil. O mesmo argumento foi usado recentemente no pas por uma famosa marca de roupas flagrada explorando trabalho escravo. Em sua defesa, a empresa jogou a culpa nos intermedirios responsveis por arregimentar os empregados. Em entrevista a VEJA, Ramona disse se sentir como uma mercadoria. O prefeito de Pacaj, Antnio Mares Pereira, concorda com ela: "Os mdicos brasileiros contratados pelo nosso municpio ganham 10.000 reais por ms, e ela ganhava pouco mais de 800 reais por ms. Isso  trabalho escravo".  

EU ME SINTI UMA MERCADORIA
Caracterstica daqueles que tiveram de aprender desde cedo a viver no silncio das ditaduras, a mdica Ramona Rodriguez no fica  vontade quando perguntada sobre os detalhes do que viveu nos ltimos dias para escapar da vigilncia do regime cubano em pleno territrio brasileiro. Olha para os lados, checa o celular, como se algum estivesse sempre ouvindo. 

Quando a senhora comeou a planejar a fuga? 
Desde o momento em que cheguei, descobri quanto ganhavam os outros mdicos e quanto os cubanos ganhavam. Eu me senti uma mercadoria. Penso que fui enganada por Cuba. No disseram que o Brasil iria pagar 10.000 reais pelo servio dos mdicos estrangeiros. Foi a que comecei a pensar nisso. A minha maior preocupao era evitar que as outras cubanas percebessem as minhas intenes. Em um momento, elas ficaram desconfiadas, porque notaram que eu estava estranha, e chegaram a chamar o supervisor. 

Como a senhora conseguiu pedir a ajuda de outras pessoas? 
Para no chamar a ateno delas, eu dizia que tinha de fazer caminhadas, me exercitar, que no estava bem de sade. Era nesses momentos, os nicos longe dos olhos das outras cubanas, que eu aproveitava para fazer contatos, fazer os preparativos. Quinze dias antes de decidir fugir, comprei a passagem de avio. Eu disse que iria visitar uma fazenda e no voltei mais. Sei que tomei uma deciso sria que poder mudar a vida de muita gente que ficou em Cuba. 

Outros cubanos esto insatisfeitos como a senhora? 
Ns, cubanos, falamos pouco, mas pensamos muito. Quando cheguei a Braslia, num grupo de 400 cubanos, passei trs semanas em treinamento. Nesse perodo, muitos cubanos reclamaram em particular ao saber quanto os outros mdicos estrangeiros iriam ganhar. Eles tambm esto se sentindo usados e enganados. Acho que muitos cubanos esto esperando para ver no que vai dar essa histria, o que vai acontecer comigo.  

A senhora teme retaliaes? 
Desde que sa da casa em Pacaj, a nica pessoa com quem falei foi minha filha, Beatriz. Quando a avisei de que eu havia fugido, ela chorou muito, mas me apoiou. Os cubanos que foram  Venezuela, ao Zimbbue, a Angola e resolveram fazer o que eu fiz esto at hoje tranquilos. S que os parentes que ficaram em Cuba sofreram, tiveram a vigilncia reforada, passaram a levar uma vida mais controlada pelo governo cubano. Minha filha, que  mdica, est em formao,  residente, pode perder o emprego e at ser perseguida agora. 

Que orientaes a senhora recebeu do governo cubano sobre como se comportar no Brasil? 
Quando cheguei a Braslia, disseram-me que havia um regramento disciplinar. Fomos informados de que essas regras seriam passadas verbalmente, nada por escrito, nada documentado. Fomos tambm advertidos de que estvamos proibidos de falar com a imprensa, dar entrevistas, e tnhamos de pedir autorizao a um supervisor cubano para ir a qualquer lugar. Se eu quisesse visitar algum, ou conhecer alguma coisa, teria de informar. At nos dias de folga, para sair de casa, por qualquer motivo, era preciso informar. 

At conversar era proibido? 
Eu podia falar, atender, mas eles no aprovavam que eu falasse muito com os brasileiros ou fizesse amizades com vizinhos, ficavam sempre me vigiando. 

O que poderia acontecer se a senhora desrespeitasse essas regras? 
Seria presa. 

A senhora j participou de misses em outros pases. Qual a diferena? 
Na Bolvia, era mais tranquilo, no tinha essa vigilncia que tem aqui no Brasil. O dinheiro era remetido pelo governo boliviano diretamente para Cuba, que nos repassava 200 dlares como ajuda de custo, porque era uma misso humanitria, no tinha salrio, era uma ajuda para cumprirmos a misso. Mas no Brasil, no, a gente tinha um contrato, com salrio definido para o Mais Mdicos. 

Como a senhora foi convidada em Cuba para vir participar do Mais Mdicos? 
Em Cuba, disseram-me que a proposta era de uma misso humanitria como a que eu havia participado na Bolvia, s que com contrato, com salrio. Mas no nos falaram nada sobre salrio. Quando nos deram o contrato para assinar foi que fiquei sabendo que seriam 400 dlares. Como na Bolvia eu ganhava 200 dlares e dava para viver, conclu que seria bom ganhar 400 dlares. Mas nunca me disseram que o Brasil era um pas to caro e que esse dinheiro no daria para nada. 

O que falaram sobre o contrato com essa empresa cubana? 
Esse contrato nos foi apresentado dois dias antes de viajar para o Brasil. Eu nunca tinha ouvido falar nessa Comercializadora de Servios Mdicos Cubanos S.A. No sei onde fica nem o que faz em Cuba. No nos explicaram nada, apenas mandaram preencher. Eu no conhecia essa empresa. 

Como  o trabalho no Mais Mdicos? 
As enfermeiras e as auxiliares so pessoas muito boas, mas no havia equipamentos e medicamentos para fazer muita coisa. Eu pensei que o posto de sade fosse mais bem equipado e com mais medicamentos. Mas muita gente trabalha, indica medicao e no h remdio para distribuir. As pessoas reclamam muito da falta de estrutura nos hospitais. 

Desde outubro a senhora est no Brasil. Em algum momento sentiu a diferena de viver em um pas livre? 
Eu me senti mais reprimida do que em Cuba, mas no por causa do Brasil, por culpa de Cuba. Eu no podia fazer nada aqui. Eu era vigiada 24 horas por dia. Nem na Bolvia  era to rigoroso o controle como aqui no Brasil. 

A presidente Dilma Rousseff  uma mulher, como a senhora. Se tivesse a oportunidade, o que diria a ela? 
Eu diria que penso que a presidente  uma mulher muito inteligente. Sei que em algum momento da vida ela tambm foi presa e oprimida por outras pessoas. Sei que ela foi torturada e teve de defender suas posies e lutar por sua liberdade. Ento, eu espero que ela tenha compaixo e ajude a resolver o meu problema. 


3#4 A TTICA DO DEBOCHE
Mensaleiro fugitivo  preso na Itlia com passaporte de um morto, enquanto no Brasil seus companheiros adotam a estratgia do escrnio  Justia, com demonstraes de deselegncia, grosseria e poder econmico.
MRIO SABINO, DE LA SPEZIA (ITLIA) E RODRIGO RANGE

     O bancrio Henrique Pizzolato sempre foi um militante exemplar para os padres do PT. Quando o partido era oposio, ele fazia parte de um grupo cuja especialidade era cavar na surdina denncias de malfeitos contra o governo, trabalho que exercia com competncia. No poder, Pizzolato foi indicado para a diretoria de marketing do Banco do Brasil, posto estratgico para executar uma misso muito mais delicada: alimentar com dinheiro pblico o esquema montado pelo PT para subornar congressistas e comprar apoio poltico. Apesar da aparente contradio, Pizzolato tambm cumpriu a tarefa com sucesso, desviando 77 milhes de reais do banco para as contas do partido e, como qualquer ladro, reservando uma parte do dinheiro para melhorar o prprio padro de vida  comprando apartamentos luxuosos, casas, carros, lotes... Em 2005, o crime foi descoberto. Assim como seus colegas de partido, ele foi condenado  priso por corrupo, lavagem de dinheiro e peculato, mas fugiu do Brasil assim que o veredito foi confirmado. Pizzolato foi preso na semana passada na cidade de Maranello, no interior da Itlia. Na linha imaginria que divide o Brasil em dois  o civilizado e o que ainda se arrasta pelos sculos passados , pode-se dizer que o mensalo, o maior escndalo de corrupo da histria do pas, tem um p em cada lado. 
     Antes de partir para Maranello, Pizzolato morou em Porto Venere, uma das enseadas mais belas  e caras  da Riviera italiana. Chegou com a mulher em meados de novembro do ano passado e instalou-se num residence chamado I Gabbiani. s pessoas com quem conversava, contava que estava ali, naquele "pedao de paraso", para gozar a aposentadoria depois de uma vida dedicada ao trabalho. Ao cabo de algumas semanas, perguntou ao proprietrio do hotel, o senhor Giovanni, se no poderia morar no apartamento em que se hospedara. O proprietrio lhe respondeu que no gostaria de ter moradores no residence, porque isso no seria to lucrativo para ele e sairia muito caro ao "senhor Celso". Mas que alugaria com gosto uma casa sua, localizada na mesma rua, Via Olivo, s que mais acima, igualmente com vista para o mar. Pizzolato e a sua mulher adoraram a pequena "villa" (como so denominadas na Itlia as casas maiores, cercadas por jardim), em que o tom de rosa das paredes externas faz um belo contraste com as oliveiras ao redor e o azul do Mediterrneo, ao fundo. Fecharam o negcio por 2000 euros por ms, fora as despesas de manuteno. 
     Antes de fugir do Brasil, Pizzolato assumiu a identidade de seu irmo, Celso, que morreu h 35 anos. Tirou documentos novos, votou nas eleies de 2008 e escondeu o patrimnio milionrio. Em Porto Venere, ele e a mulher levavam uma vida, se no luxuosa, bastante agradvel graas ao dinheiro roubado do contribuinte brasileiro: jantares em restaurantes locais, aperitivos ao cair da tarde em Le Grazie, um recanto de Porto Venere, e idas  vizinha Cinque Terre. O casal ganhou a ateno dos policiais de La Spezia, capital da provncia da qual Porto Venere faz parte, em janeiro, depois que a seo italiana da Interpol, baseada em Roma, lhes comunicou que havia um "Celso Pizzolato" domiciliado por l. "Esse foi o seu maior erro: registrar-se na prefeitura de Porto Venere, a fim de obter uma carteira de identidade", afirma o capito Armando Ago, que comanda a seo de investigao da polcia de La Spezia. Quando o sobrenome "Pizzolato" foi registrado na prefeitura de Porto Venere, o alarme soou na Interpol  e as autoridades de La Spezia foram acionadas. Ao longo de janeiro, uma dezena de policiais monitorou o cotidiano de "Celso". Queriam, a princpio, saber se ele estava dando guarida ao fugitivo brasileiro, mas o fato  que no havia outro homem morando na casa de Via Olivo. A certeza de que "Celso" era Henrique Pizzolato veio depois que a Polcia Federal, em Braslia, descobriu que, para obter o passaporte em nome do irmo morto, o mensaleiro havia falsificado os papis brasileiros necessrios para a obteno do documento. "Ao ser interpelado, ele fingiu no saber italiano, falava apenas em portugus", ri o capito Ago.
     O destino do mensaleiro est, agora, nas mos da Corte de Apelo de Bolonha, onde se travar a batalha judicial em torno da sua extradio e dos crimes que cometeu como italiano. O primeiro deles  "substituio de pessoa", uma modalidade de falsidade ideolgica mais branda que pode render at um ano de priso (o passaporte, ao contrrio do que vem publicando a imprensa, no  falso em si, pois foi efetivamente emitido por representantes consulares). O segundo, mais grave,  o fornecimento de documentos falsos para a confeco do passaporte  e contabilize-se a uma pena de mais dois anos, pelo menos. O terceiro, pesadssimo,  reciclagem de dinheiro e fraude fiscal. Como pagava todas as suas despesas em espcie, Pizzolato precisa justificar a origem dos milhares de euros ao Ministrio da Fazenda da Itlia. No Brasil, sabe-se qual . O fato: apesar de tudo isso, por ter dupla nacionalidade, ele tem grandes chances de escapar da Justia brasileira  e ficar livre, leve e solto. 
     A priso de Pizzolato aconteceu dias depois de os mensaleiros desencadearem uma srie de aes para fustigar a Justia. O deputado Joo Paulo Cunha, na iminncia de ter a priso decretada, o que acabou ocorrendo na tera-feira, participou de um protesto em defesa dos criminosos promovido por petistas em frente ao Supremo Tribunal Federal. Depois, j na cadeia, anunciou que no pretendia renunciar ao mandato. Mais: queria autorizao da Justia para continuar exercendo a atividade parlamentar durante o dia  um insulto. Pressionado, ele renunciou na noite de sexta-feira. Na solenidade de abertura do Congresso, foi a vez de o vice-presidente da Cmara, o petista Andr Vargas, dar sua contribuio  Repblica. Descorts, para dizer o mnimo, ele provocou o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo do mensalo, repetindo na frente dele o gesto feito pelos mensaleiros ao serem presos no ano passado. Grosseiro, tambm foi flagrado escrevendo uma mensagem em que revela ao interlocutor a vontade de dar uma "cutovelada" (sic) no ministro. Os petistas mostraram mais uma vez a elevada estima e o respeito que muitos deles reservam s instituies. 
     Em todo o mundo, h pessoas presas por ter tomado dinheiro alheio. No Brasil, h agora encarcerados que conseguem levantar boladas a partir da cela. Mandados  priso no fim do julgamento do mensalo, Jos Genoino e Delbio Soares tambm foram condenados a pagar multas como parte da punio. Em um prazo incrivelmente curto, a dupla levantou o dinheiro a partir de campanhas de doao divulgadas pela internet. O PT comemorou o feito, visto como um grito vindo da sua militncia. O montante e a velocidade com que se juntou tanto dinheiro chamam ateno. Genoino reuniu 761.962 reais em onze dias (mdia de 290,82 por doador). Delbio amealhou 1.013.657 (mdia de 607,70), mais do que o dobro do necessrio, em oito dias (veja o quadro nas pgs. 66 e 67). O que sobrou ser doado ao ex-ministro Jos Dirceu. At o procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, defendeu uma investigao, j em curso em dois estados, sobre as operaes. "Qualquer um pode fazer a doao. O que a gente quer compreender  a origem do dinheiro." O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, foi mais longe: "Ser que no h um processo de lavagem de dinheiro aqui?". 
     Lideranas do PT tentaram convencer os incautos de que a arrecadao foi uma forma indireta de reprovao do julgamento do mensalo. Se for verdade, os insatisfeitos so pouqussimos. A despeito da euforia partidria, os nmeros divulgados mostram que o total de participantes das duas vaquinhas foi de modestas 4288 pessoas. Trata-se ainda de uma hiptese generosa, j que  provvel que entre os 2620 apoiadores de Genoino e os 1668 de Delbio haja gente em comum. Portanto, a voz que se ergue contra o julgamento no passa de 0,002% da populao, ou 0,003% dos eleitores. Ainda assim, surpreende que tantas pessoas se disponham a pr a mo no bolso para pagar a multa devida por gente que, aps pr a mo no mesmo lugar, foi condenada pela Justia. 

PODER MENSALEIRO
As multas so parte da punio aplicada aos condenados. Eles, porm, no desembolsaram um nico centavo. A militncia do PT arrecadou 1,7 milho de reais e est quitando a dvida dos corruptos.
Delbio Soares
Condenado a: 8 anos e 11 meses de priso, foi autorizado a trabalhar na CUT e apenas dorme da cela.
Pode ficar livre em: agosto
Multa (em reais): 466.800 (quitada)
Arrecadao (em reais): 1.013.657

Jos Genoino
Condenado a: 6 anos e 11 meses. Est em priso domiciliar.
Pode ficar livre em: setembro
Multa (em reais): 667.500 (quitada)
Arrecadao (em reais): 761.900

Jos Dirceu
Condenado a: 10 anos e 10 meses de priso, aguarda autorizao para trabalhar
Pode ficar livre em: setembro
Multa (em reais): 971.128 (em aberto)
Arrecadao (em reais): 546.857 (Excedente da arrecadao de Delbio Soares)

COM REPORTAGEM DE RENATA HONORATO E CLAUDIA TOZETTO

NO SO MANEIRAS REPUBLICANAS
O ex-sindicalista Olvio Dutra  um dos fundadores do PT. Ex-governador do Rio Grande do Sul, tambm foi ministro durante o primeiro governo Lula, poca em que seu partido montou e operou o maior esquema de corrupo poltica da histria. Dutra deixou o governo em julho de 2005, dois meses aps a ecloso do escndalo. Ele diz que no pretende se candidatar a nenhum cargo eletivo, mas vai continuar "militando por ideias". Dutra  um dos poucos petistas que falam abertamente o que pensam sobre o mensalo. 

Como petista histrico, o senhor analisa de que maneira o desfecho do julgamento do mensalo? 
 bom que as instituies estejam em pleno funcionamento. No  isso que a gente quer na democracia? Os poderes funcionam bem na medida em que estiverem articulados, balizados pelo respeito  coisa pblica. 

O PT, porm, critica a Justia e, principalmente, o presidente do Supremo, Joaquim Barbosa. 
O ministro Joaquim Barbosa reflete um momento importante do Judicirio brasileiro e da mais alta corte. Acho muito bom que exista no pas uma instituio que funcione, atravs da sua composio, que tambm  plural. 

O deputado Joo Paulo Cunha disse que o julgamento do mensalo foi de exceo. 
Olha, ele  um dos que foram julgados, tiveram direito de defesa e foram condenados. Est preso. 

O senhor, como militante, ajudou a arrecadar dinheiro para pagar a multa dos condenados? 
Eu no faria isso. Essas pessoas foram julgadas, condenadas e esto presas.  a lei. Esto presas porque no agiram corretamente. Eu no tenho nenhum conhecimento de que algum deles tenha roubado dinheiro para enriquecimento prprio. Mas a forma como gerenciaram a poltica, como agiram politicamente... No so maneiras republicanas. 

Por qu? 
O gesto de vaquinha no pode ser uma instruo do partido, no pode ser uma deliberao partidria, no pode nem deve, porque isso no  republicano, no  correto. Acho que a Justia deve saber de onde  que vm os recursos, como  que rapidamente se amealharam esses recursos. Tem gente no PT enfrentando dificuldades mais srias. So ex-prefeitos de cidades que, por conta de uma injuno poltica, tiveram de pagar multas altssimas e que no cometeram deslizes administrativos, no roubaram nem desacataram autoridades. Para essas ocasies a coisa no funciona? Isso no qualifica para melhor o nosso partido.
HUGO MARQUES


3#5 RODRIGO CONSTANTINO  AS CAUSAS DA INFLAO
     Em seu primeiro pronunciamento como ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante elogiou a equipe econmica liderada por Guido Mantega e destacou que o governo mantm "compromisso com o controle da inflao". Ser verdade mesmo? 
     A esquerda costuma atribuir a inflao  ganncia dos empresrios ou ento a fatores exgenos, como uma colheita ruim. Por isso, sempre demanda taxas de juros menores e gastos pblicos maiores. No compreende o que causa, de fato, a inflao. 
     A perda do poder de compra da moeda, ou seja, a desvalorizao do dinheiro ao longo do tempo, depende da lei da oferta e demanda. Se  o governo que controla a oferta monetria, claro que o aumento da quantidade de dinheiro na economia  uma deciso poltica. Se um falsificador criasse dinheiro da noite para o dia, todos entenderiam quo prejudicial isso seria aos demais; quando  o governo que cria mais moeda, isso  visto como algo positivo. 
     Muitos confundem dinheiro com riqueza. Acabam defendendo a iluso de que o governo pode aumentar a riqueza real expandindo a circulao de dinheiro e crdito. Se bastasse imprimir moeda, o Zimbbue e a Venezuela seriam pases de Primeiro Mundo.  
     A poltica inflacionria costuma ser bastante popular no comeo, quando seus efeitos perversos ainda no apareceram. Aqueles que demandam tal poltica esto focando apenas o seu lado da equao. O que desejam  um aumento na demanda e nos preos daqueles bens e servios que vendem, enquanto gostariam de ver os demais preos inalterados. A ignorncia do pblico  indispensvel  poltica inflacionria. Mas no  possvel enganar a todos o tempo todo. Quando muitos notam que o aumento dos preos  generalizado, ento os planos inflacionrios entram em colapso. Surge a indexao ou a fuga para outras moedas, como podemos ver agora na Argentina. 
     O poder de impresso de dinheiro nas mos do governo sempre foi um enorme risco para a liberdade e a prosperidade dos povos. O recurso inflacionrio garante ao governo os fundos que ele no conseguiria captar por meio de impostos diretos ou emisso de dvida, mecanismos mais visveis e, portanto, impopulares. O aumento do gasto pblico acaba financiado pela emisso de moeda e crdito sem lastro, gerando inflao. Milton Friedman (1912-2006), prmio Nobel de Economia, mostrou que a inflao  sempre um fenmeno monetrio. No se trata do resultado da ganncia dos empresrios, que  similar na Sua e no Brasil. Tampouco  fruto de colheitas ruins, o que levaria apenas a uma mudana de preos relativos. 
     Quando todos os preos esto subindo juntos,  porque h moeda ou crdito demais na economia. Sendo o governo o responsvel por controlar tais agregados, naturalmente a inflao  sua cria direta. Apenas para ilustrar, a Caixa tem expandido sua carteira em 40% ao ano e o BNDES em 20%. As barreiras ao livre mercado agravam o problema, por limitar a concorrncia. Como instrumento de combate ao risco inflacionrio, os pases desenvolvidos criaram bancos centrais independentes, com a funo de mirar em metas de inflao bem definidas. 
     O Brasil est bem atrasado nesse aspecto. Nosso Banco Central no  independente por lei nem goza de autonomia operacional na prtica, principalmente sob o governo Dilma. A meta de inflao de 4,5%, elevada para padres internacionais,  ignorada h anos. O governo alega que mantm a inflao dentro do limite de 6,5%, mas ignora que a banda existe para casos espordicos. No fundo, a verdadeira meta  o topo da banda. Sem falar dos preos administrados pelo governo, que esto congelados de maneira insustentvel. Analisando um ano isolado, pode parecer pouco. Mas, quando vemos o efeito composto no tempo, o estrago  enorme. Uma inflao de 6% ao ano representa uma perda acumulada de quase 80% em uma dcada. 
     Trata-se do pior tipo de "imposto" para os mais pobres. A perda de credibilidade do BC acaba jogando mais lenha na fogueira inflacionria, pois aumenta as expectativas futuras dos agentes, criando certa inrcia e indexao. Trata-se de uma equivocada poltica do governo Dilma, que expande gastos e crdito, sem produzir crescimento econmico.  preciso cortar gastos pblicos e instituir a independncia do Banco Central urgentemente. 
     Pela fala de Mercadante, porm, vemos que o governo Dilma prefere negar a realidade e insistir no processo inflacionrio. Perde o Brasil. 


